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Conheça o Sisteminha: projeto brasileiro que auxilia na erradicação da fome no mundo

Conheça o Sisteminha: projeto brasileiro que auxilia na erradicação da fome no mundo

Foto: Dr. Luiz Carlos Guilherme

Os dados da Organização Mundial de Saúde são alarmantes: mais de 820 milhões de pessoas passaram fome ao redor do mundo no ano de 2018. Para auxiliar na erradicação deste problema que move diversas instituições e voluntários ao redor do mundo, o professor e pesquisador da Embrapa, Dr. Luiz Carlos Guilherme, desenvolveu durante seu doutorado um projeto que vem ganhando cada vez mais adeptos: o Sisteminha. O projeto auxilia famílias de baixa renda a atenderem suas necessidades nutricionais ao produzirem seus próprios alimentos com qualidade, com baixo nível de agrotóxico e com a utilização de todos os recursos disponíveis ao entorno de sua residência, fomentando ainda o empreendedorismo e a independência financeira em regiões de baixo IDH no Brasil e em diversos países da África.

Confira abaixo a entrevista exclusiva com Dr. Luiz Carlos Guilherme, que teve seu projeto indicado à premiação Planet of Plenty, promovido pela Alltech Inc., que reconhecerá aqueles que estão construindo um mundo de abundância dentro do setor agroalimentício.

Alltech: Como você se inspirou para criar o Sisteminha?

LCG: Iniciei o projeto do Sisteminha no meu doutorado em 2002 na Universidade Federal de Uberlândia. Ele começou enquanto tentávamos reduzir o valor de implantação de um sistema de criação de peixes, onde ao final conseguimos reduzir em mais de 98% o seu valor de implantação. Posteriormente, comecei a trabalhar na Embrapa, que me permitiu ampliar o Sisteminha da forma que ele é atualmente. A ideia central era oportunizar a geração de renda para pessoas no entorno da Embrapa de Parnaíba, no Piauí. A partir de 2008, comecei a trabalhar no projeto de utilizar o Sisteminha como uma ferramenta de combate à fome para famílias de 4 a 5 pessoas com uma área disponível de cultivo de pouco mais de 100 m², permitindo que o conhecimento científico sobre produção agrícola que vem desde a revolução verde chegasse às famílias mais simples. Meu propósito era que que todo esse conhecimento atendesse às exigências nutricionais das famílias com a segurança alimentar necessária. Porém, o projeto vai além da subsistência. A família que, por exemplo, já contam com galinhas poedeiras produzindo mais ovos do que o necessário, podem comercializar esses ovos, incentivando o empreendedorismo. Porém, é importante deixar claro, que o mercado entra como uma consequência e não como a causa do Sisteminha.

Alltech: Como funciona a implementação do Sisteminha?

LCG: Existem 15 módulos, que vão avançando de acordo com as possibilidades da família. Iniciamos geralmente com o módulo da piscicultura, mas em seguida há uma grande variedade de opções como verduras e legumes, produção de aves, passando até por aquaponia e larvas de moscas como fonte de proteína para alimentação de camarões e peixes. Tudo depende da necessidade da região em que a família está inserida.

Toda a implantação do projeto é voltada para a redução de custos. O módulo de aquicultura, por exemplo, ao mesmo tempo que utiliza a técnica avançada de recirculação, tem uma pegada criativa, que permite que sejam criados tanques com papelão e/ou alvenaria, o que torna a implantação acessível às populações mais pobres.

Alltech: Qual é a diferença do Sisteminha para a agricultura convencional de subsistência?

LCG: A agricultura convencional costuma ser itinerante porque aqui na nossa região há o hábito de roçar e pôr fogo. Cerca de 2 anos depois, há um esgotamento do solo fazendo com que a terra que havia servido de plantio não esteja mais em boas condições de cultivo. Já o Sisteminha tem o objetivo de intensificar a produção em pequenos espaços, ou seja, os resultados alcançados dentro dos mesmos 100 m² onde a família havia iniciado seu plantio são aumentados com o decorrer do tempo. Além disso, como são propriedades pequenas, a necessidade de agroquímicos é praticamente nula. Outro diferencial do Sisteminha é que, por exemplo, a própria produção de peixes em tanques sequestra mais de 60% do carbono que poderia ir para a atmosfera e a água que sobra das tilápias irriga os canteiros por ser um biofertilizante que contem nutrientes como nitrogênio e potássio além do fósforo, magnésio, enxofre e cálcio.

Alltech: Qual é o valor inicial de investimento para implantar o Sisteminha?

LCG: Para uma área entre 100 m² e 1500 m² é preciso um investimento que varia entre R$ 500 a R$ 5 mil para implantar o módulo básico, que é o de piscicultura, podendo incluir ainda galinhas de postura e compostagem, dependendo do orçamento disponível. Uma pessoa em situação de miséria, infelizmente, não conseguiria implantar o Sisteminha. Todavia, uma família de baixa renda já consegue economizar para iniciar a produção ou solicitar um empréstimo.

Alltech: Existem políticas públicas que auxiliam essas famílias de menor poder aquisitivo a terem acesso ao sisteminha?

LCG: No Maranhão, por exemplo, existem o projeto “Mais IDH”, que já beneficiou mais de 3 mil famílias com várias tecnologias sociais, e o Sisteminha é uma delas, onde pudemos atender mais de 600 famílias.  Atualmente, estimamos que exista mais de 4.500 sisteminhas espalhados pelo país. Também já é possível encontrar o Sisteminha em países da África, como Gana, Uganda, Etiópia, Camarões, Angola, Moçambique que implementaram o projeto por meio de projetos ou iniciativa própria ao conhecerem o Sisteminha pela internet.  

Alltech: Como o senhor avalia o sucesso do Sisteminha depois desses anos de implantação?

LCG: Muitas famílias modificaram completamente o curso de suas vidas após a implantação do Sisteminha. No começo, a minha ideia era permitir que as pessoas tivessem acesso à alimentação e comercializassem o volume excedente. Porém, nos dias de hoje, já conseguimos observar pessoas se especializando em alguns tipos de produção e outros até estão oferecendo assistência técnica na implementação do Sisteminha. Existe um terceiro perfil ainda que são das pessoas que implementaram o projeto, mas não querem ter excedentes na produção. Estes então começam a plantar de maneira escalonada, ou seja, revezando seus cultivos, garantindo assim o alimento da família com bastante variedade e fatura.

Alltech: Como o Sisteminha contribui na construção de um planeta de abundância para as gerações futuras?

LCG: Ele contribui de diversas formas. Desde o combate à fome e à miséria até na melhoria da qualidade de vida das pessoas. As famílias têm acesso a proteínas, vitaminas, minerais, reduzindo assim a desnutrição infantil, diabetes e a redução dos índices de colesterol, por exemplo. Como resultado temos observado a melhoria do desempenho escolar das crianças e o aumento da autoestima dos adultos. Temos observado também uma preocupação maior com a manutenção do ambiente ao seu redor, com a diminuição de casos de verminose e dengue. Pudemos notar ainda um cuidado na preservação da natureza, porque as pessoas envolvidas acabam se conscientizando sobre o seu impacto no meio ambiente. Há ainda resultados no comportamento: pessoas que até então eram tímidas se tornam mais extrovertidas alegres, felizes, enfim cheias de serotonina e endorfina. É uma alegria observar como um projeto pôde se desenvolver tão bem ao longo desses anos!

Sisteminha na mídia: confira os depoimentos de quem teve suas vidas transformadas com o auxílio do projeto:


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