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Qualidade da água na aquacultura

Qualidade da água na aquacultura

A qualidade do ambiente de cultivo influencia no desempenho (crescimento e conversão alimentar), na saúde e na qualidade dos peixes e camarões.

Empreendimentos de aquacultura são muito diversificados, variando desde o cultivo de peixes em tanques-rede em grandes reservatórios (onde o produtor tem quase nenhum controle sobre a qualidade da água) até sistemas fechados com recirculação e tratamento de água (confira o post sobre o sistema RAS), nos quais é possível controlar com precisão diversas condições ambientais, como temperatura, oxigênio dissolvido, sólidos em suspensão, pH, amônia, nitrito, nitrato, alcalinidade e dureza total, salinidade, fotoperíodo/ intensidade de luz, entre outros parâmetros.

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Fig. 1 – No cultivo em tanques-rede, em grandes reservatórios, não há muito a fazer para corrigir a qualidade da água, a não ser escolher bem o local onde os tanques redes serão instalados, baseado em registros históricos de qualidade de água. Por outro lado, quando os cultivos são em viveiros ou açudes,  especialmente com baixa renovação de água, o produtor pode intervir com práticas de manejo que melhorem a qualidade da água (calagem, aeração, renovações de água, controle do fitoplâncton, aplicações de sal, entre outras).

Como manter a qualidade da água em tanques de terra?

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Grande parte do cultivo de peixes e camarões é feita em tanques de terra (viveiros ou açudes ou, em inglês, “side-levee ponds” ou “hillside ponds”) com ou sem renovação de água. A qualidade de água pode ser corrigida ou ajustada por meio de três principais práticas de manejo:

  1. Calagem, aplicação de calcário agrícola ou cal com o objetivo de correção do pH e/ou fortalecimento do sistema tampão químico da água por meio de elevação na alcalinidade e dureza total da água;
  2. Aeração mecânica, provida principalmente com aeradores de pás ou bombas verticais (chafariz), com a intenção de manter adequados os níveis de oxigênio na água, particularmente durante o período noturno;
  3. Renovação de água, quando possível, auxilia na diluição de nutrientes e de compostos tóxicos, como a amônia e o nitrito. Também ajuda a evitar um excessivo desenvolvimento de microalgas.

Diversas outras práticas específicas de manejo complementares à calagem, aeração e renovação de água podem ser necessárias para manter uma boa qualidade da água no cultivo de peixes e camarões.

Como manter a qualidade da água em cultivos intensivos?

Nos cultivos intensivos, o oxigênio dissolvido é o primeiro fator limitante da produção.

Por isso, a aeração mecânica (feitas com aeradores de pás, bombas verticais, propulsores-aspiradores, entre outros equipamentos) pode aumentar com segurança a capacidade de produção (ou produtividade anual) dos seus tanques de cultivo (Fig. 2).

O ideal é que sejam mantidas concentrações de oxigênio acima de 60% da saturação (> 4 mg/l em água doce a 28°C). Em viveiros com predomínio de microalgas (fitoplâncton), geralmente ocorre grande variação nas concentrações de oxigênio ao longo do dia, em função da respiração (dos peixes, das algas, bactérias e outros organismos presentes nos tanques de cultivo) e da fotossíntese realizada por microalgas e por plantas aquáticas submersas. Nos horários com sol, a produção de oxigênio na fotossíntese geralmente supera o consumo de oxigênio na respiração. Por isso, a concentração de oxigênio na água vai se elevando gradualmente desde as primeiras horas da manhã até o meio da tarde (16-17 horas), podendo facilmente superar 15 a 20 mg/l.

Por outro lado, com a ausência de luz no período noturno, a fotossíntese cessa e o consumo de oxigênio pela respiração começa a consumir o oxigênio acumulado ao longo do dia. No meio da madrugada e nas primeiras horas do dia (6h às 8h) é comum o registro de baixos níveis de oxigênio <2 mg/l em tanques sem aeração.

Com a aeração mecânica é possível manter níveis adequados de oxigênio na água.  Com os níveis de oxigênio controlados, o próximo fator limitante à produção é o acúmulo de compostos nitrogenados tóxicos na água, em particular a amônia na forma tóxica (NH3) e o nitrito (NO₂-). A elevação nas concentrações desses compostos resulta do aumento na quantidade de ração fornecida nos tanques de cultivo.

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Figuras 2 e 3: a aeração mecânica realizada por aeradores de pás ou do tipo bomba-vertical (tipo fonte ou chafariz) e medidores digitais de oxigênio são ferramentas fundamentais para monitorar e assegurar adequados níveis de oxigênio na água. A aeração impede que os peixes e camarões morram por déficits de oxigênio, e minimiza ou reduz a ocorrência de enfermidades que geralmente acometem os animais após exposições seguidas a baixos níveis de oxigênio na água (Kubitza, F).

Os impactos da amônia e do nitrito

A amônia surge da própria excreção nitrogenada dos peixes e camarões por difusão direta do sangue para a água por meio das brânquias. Outra parte da amônia gerada nos tanques de cultivo tem origem na decomposição microbiana dos resíduos orgânicos (fezes, microalgas mortas, cascas ou exoesqueleto dos camarões, fertilizantes orgânicos, entre outros). As concentrações de amônia tóxica (NH3) na água não devem exceder a 0,1 mg/l. Concentrações de amônia tóxica acima de 1 mg/l podem ser letais, dependendo do estágio de vida e da espécie cultivada.

o nitrito é um composto intermediário da oxidação da amônia a nitrato. Essa oxidação é realizada por bactérias presentes na água e no solo dos tanques de cultivo. Em água doce, as concentrações de nitrito não devem exceder 0,5 mg/l. O risco de toxidez de nitrito aos peixes e camarões reduz com a elevação da salinidade ou, mais especificamente, com o aumento na concentração de íons cloretos na água. Daí a prática de realizar aplicações de sal comum (NaCl) na água dos tanques de cultivo, particularmente quando não é possível ou viável renovar a água. A manutenção de uma relação entre Cl- e NO₂- de 6 a 10:1 ajuda a minimizar o risco de toxidez por nitrito no cultivo de peixes de água doce.

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Medidores de oxigênio, refratômetros (salinidade) e kits de análise de água (para análises de pH, amônia total, nitrito, alcalinidade total, dureza total e gás carbônico) são equipamentos essenciais que os produtores devem dispor para monitorar a qualidade da água em seus empreendimentos.

Autor:

Fernando Kubitza
Engenheiro Agrônomo formado na ESALQ-USP, Mestre em Nutrição Animal pela mesma instituição e Doutor em Aquicultura pela Auburn University, Alabama, Estados Unidos. Foi professor e pesquisador do Departamento de Zootecnia da ESALQ-USP. Considerado um dos principais nutricionistas de peixes do país, é consultor de empresas fabricantes de rações para peixes na elaboração das primeiras linhas completas de ração para peixes carnívoros e para os cultivos intensivos de tilápia no Brasil.

 

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